31ª edição da Bienal de Artes termina, mas o debate continua / Site O Beijo

É possível ouvir os gritos fora do pavilhão. Os integrantes do programa educativo da 31ª Bienal de São Paulo comemoram. Parecem felizes e aliviados. A mostra chegou ao fim, são 19h do domingo (7). Segundo os seguranças do pavilhão Ciccilio Matarazzo, os curadores da exposição também participam da festa.

19h30, os monitores da Bienal saem do Pavilhão. Em meio a jovens coloridos e sorridentes, Charles Esche, Galit Eliat e Oren Sagiv – curadores da mostra – conversam descontraidamente. Diferentemente do que ocorreu no 2º Fórum Mundial das Bienais, realizado em São Paulo, Esche não evita falar com a imprensa.

“ – Como você se sente com a experiência da Bienal? ”, pergunto. “É muito cedo para falar. Com o fim da mostra, a história começa a ser contada”, responde. Insisto: “ – Você se sente bem?”. Ele sorri e diz: “ – Eu me sinto confuso”. O burburinho da comemoração interrompe a conversa. Há muito o que se falar, mas talvez, seja realmente muito cedo. Despeço-me e agradeço.

A Bienal de Artes de São Paulo é, de praxe, um evento polêmico. Não é por menos, é a segunda mostra mais antiga do mundo – só perde para Veneza – e uma das mais importantes – por ela, a produção do Sul, não necessariamente identificada com esta divisão cartográfica, deságua. A 31ª edição da exposição, porém, foi além das expectativas.

Antes da abertura, marcada para 6 de setembro, artistas questionaram o apoio financeiro de Israel recebido pelo evento. Em manifesto divulgado pela internet, declararam: “Ao aceitar esse financiamento, nosso trabalho artístico mostrado na exposição está sendo implicitamente utilizado para limpar as continuadas agressões conduzidas por Israel e suas violações da lei internacional e de direitos humanos”.

No dia 1º de dezembro, três dias após a divulgação do manifesto, a Fundação Bienal anunciou que acataria o pedido dos artistas e, consequentemente, não receberia o apoio de Israel. Os arte-ativistas comemoraram. Na internet, divulgaram o folder da mostra sem a logo de Israel. Findado o problema, a atenção voltou a se concentrar sobre a inauguração da mostra.

Culturalização da arte x Autonomia dos objetos de arte

No dia 7 de dezembro, a 31ª Bienal de Artes foi aberta. Nos térreo e nos três andares do pavilhão, estavam projetos e artistas pouco conhecidos do grande público e do mercado de arte. Os jovens Thiago Martins de Melo, Arthur Scovino e Yuri Firmeza eram, para os visitantes nacionais, o que havia de mais próximo. Em 2014, Martins de Melo teve trabalhos em cartaz na exposição Singularidades/Anotações, realizada no Instituto Itaú Cultural; Firmeza expõs “Ruínas” na Casa Triângulo e Arthur Scovino participou da 3ª Bienal da Bahia.

O tom declaradamente político chamou atenção. O eixo de interesse da Bienal era “Como  (…) coisas que não existem”. A frase evocava o poder revelador da Arte e as obras abordavam situações distantes das preocupações do centro econômico e cultural do país. Falavam da repressão na ditadura argentina (Violência – Carlos Romero) e a historiografia da transgêneridade (Línea de Vida, Museu del Travesti em Peru – Giuseppe Campuzano). Revelavam os rostos dos encarcerados brasileiros (Sem título – Eder Oliveira) e a história de Fordylândia, cidade paraense criada por Henry Ford e depois, deixada à míngua (A última aventura, Romy Pocztaruk).

O engajamento dos trabalhos dividiu a classe artística e os visitantes em dois grupos: quem amou e quem odiou a Bienal. O Beijo acompanhou as reações. Em entrevista ao site, Ricardo Ohtake, diretor geral do Instituto Tomie Ohtake, declarou: “Eu acho que a mostra assumiu o que existe no mundo de hoje. Tem conflitos, tem poesia. Tem visões que extrapolam a imaginação. São obras que mostram o que está acontecendo hoje no mundo. Isso que é mais interessante”. Já Ivald Granato, artista plástico e performer premiado, revelou: “A Bienal não mais é a mesma. Participei de oito edições. É o mesmo prédio, mas o que eu vi ali era um simpósio de uma discussão de qualquer coisa, menos arte.  Uma coisa que me pareceu uma feira de subúrbio, malfeita. Uma coisa muito pobre, dá pra sentir que é reflexiva, mas não tem nada muito que ver com arte”.

O conflito seguiu vivo até o fim da exposição. A solução talvez não passe por uma fórmula conciliadora, mas sim pela compreensão de duas formas de encarar a Arte. A primeira e mais difundida acredita na autonomia dos objetos e na desvinculação com intenções políticas e sociais. A forma se sobrepõe ao tema. A segunda vê na arte um meio de expressão e instrumento de questionamento. Mundo e obra se fundem. Muitas vezes, o tema sobressai à forma.

Questão indígena: um aspecto a ser ressaltado

Independentemente de qual visão saiu vitoriosa, há aspectos positivos a serem destacados na mostra. Um deles é a abordagem da questão indígena. Ainda hoje, os costumes de etnias, como Krahô, Xavantes e Bororó, não são conhecidos e, muito menos assimilados. No processo de miscigenação brasileira, os negros tomaram à dianteira. A  cultura afro foi melhor aceita. Capoeira, afoxé e orixás são mais presentes na realidade do país do que corrida de tora, pajelança e rituais xamânicos.

Os indígenas sabem disso. No vídeo Ymá Nhandetehama, o guarani Almires Martins encara os espectadores com expressão fechada. Seu tom de voz mescla crítica e melancolia. Para ele, a comunidade indígena é colocada à parte da sociedade. “Nós sempre fomos invisíveis (…). Estudiosos entendem mais de índio do que nós próprios. A academia também invisibiliza o índio (…)”. A iluminação do rosto de Martins mescla sombra e tons escuros de azul. Não há como não se incomodar. O indígena finaliza: “A história tem sido escrita com sangue indígena, como um grito no silêncio da morte”. A frase ecoa.

No térreo da Bienal, no último dia da mostra (7), crianças e adolescentes indígenas se apresentaram. O canto chama atenção dos visitantes. A batida dos pés marca o ritmo. Muitas pessoas resolvem tirar fotos, os artistas não se abalam. Parecem acostumados a lidar com a ambigüidade do olhar. Não se travestem, mesclam referências. As saias parte de vestes dos seus povos são combinadas com camisetas. As estampas são variadas e os motivos corriqueiros. Em uma delas, a fórmula para entender o Brasil e arte dita nacional: “Keep Calm”.


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