Fernanda Feitosa faz balanço da SP-ARTE 2015 / Site O Beijo

Em um prédio comercial, localizado no bairro de Pinheiros, Fernanda Feitosa recebeu a reportagem do site O Beijo. No bate-papo, a idealizadora da SP-ARTE, maior feira de arte da América Latina, falou sobre o evento e o mercado.

Antes que Fernanda surgisse na ampla sala de reuniões, uma análise superficial do ambiente dava indícios de sua maratona.  Dezenas de revistas ocupavam o centro da mesa. Nas pilhas de publicações, destacavam-se catálogos da Paris Photo, importante feira de fotografia fine art, e um exemplar da revista ZUM.

Depois da realização da 11ª edição da SP-ARTE, no imponente Pavilhão Ciccillio Matarazzo, a advogada prepara agora a SP-FOTO 2015. O evento voltado à fotografia será realizada de 19 a 23 de agosto de 2015.

Além da disposição, a firmeza como qual defende seus posicionamentos é um ponto a ser destacado. Com documentos e cálculos, Fernanda aborda questões, como a isenção do ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias) a obras comercializadas na SP-ARTE.

Sem pestanejar, também defende o aperfeiçoamento do mercado interno decorrente da competição entre galerias nacionais e internacionais. Findado o momento spoiler, veja a seguir trechos da conversa com Fernanda Feitosa.

O nascimento da SP-ARTE 2015

“Eu nunca falei isso, mas a ideia da feira começou com uma visão. Por que a gente não conseguiria fazer aqui no Brasil uma feira de arte com uma atmosfera vibrante análoga a pulsação de São Paulo, que é uma cidade na qual você sente o pulsação da vida. Aqui é diferente de outras cidades, em São Paulo, você sente a vida contemporânea com todas belezas e agruras que ela tem”.

“Eu tinha alguns amigos galeristas, claro, não conhecia todos e comecei a perguntar. Cheguei na Bienal (de Artes de São Paulo) com uma maquete e falei que queria fazer uma feira daquele tamanho. Achava que o prédio era tão importante que a gente deveria reverenciá-lo. ‘Eu não quero fazer qualquer coisa aqui, não é uma feira de calçados, de alimentos’. Eu queria fazer uma feira de arte e levar isso para o pavilhão. Enfim, eu gosto de construir e a feira entrou nesta visão que a gente poderia fazer uma coisa bem bacana. Não pensava que teria esta grandiosidade 10 anos depois”.

Desafios antigos e atuais da feira

“Os desafios são desafios de qualquer negócio, talvez sejam os mesmos que o Paulo Borges (fundador da São Paulo Fashion Week) enfrentou. É você tentar agregar um setor que trabalha muito individualmente. Meu papel foi falar ´- Ei, pessoal, arte é um super setor. Tem muitos artistas bacanas, muita gente querendo comprar, vamos fazer um evento onde nos reunimos e mostramos o que temos de melhor’. A dificuldade inicial é você compartilhar sua visão com as outras pessoas. A minha sorte é que, graças a deus, muitos tinham essa visão e este desejo”.

“Em uma cenário de 180 feiras de arte no mundo, hoje, o desafio é atrair as galerias estrangeiras. Na verdade,  continuar atraindo. Assim como as nacionais, as galerias de fora querem divulgar seu trabalho no seu país, mas também visam o mercado no exterior. Se eles têm muitas opções, o esforço da gente para se manter atrativo é maior. Temos que manter a liderança em uma cenário mais competitivo, no qual também há a valorização do dólar no Brasil”.

 

Fotos da SP-ARTE 2015 (Créditos: Vinicius Assencio)

 

Competição entre galerias nacionais e internacionais

“Faz parte da vida. Vou te responder, onde você prefere morar: em um país onde não tem competição, ou, em um que tem competição e você pode ter os melhores produtos? As melhores obras de arte. A competição é um estímulo. Esta questão tem a ver com o mundo que você quer morar: Cuba ou Brasil? Venezuela ou Brasil? Eu quero morar em uma país onde há diversidade cultural. Se o mundo entra aqui, os artistas podem entender não só o que acontece no Brasil, mas o que acontece nos outros países”.

“Tem gente que gosta de competição e gente que não gosta. Eu sou atleta, eu gosto. A pessoa que está na raia ao lado não é somente um adversário, mas um grande colaborador. Eu vi outro dia um filme sobre o Niki Lauda (importante piloto da Fórmula 1), no qual era abordada a relação dele com o James Hunt – seu adversário. Para o público, os dois eram grandes inimigos, mas em verdade, eles se admiravam mutuamente enquanto davam o sangue para superar um ao outro”.

“Em determinado momento, o Niki Lauda teve um grande acidente. O carro dele pegou fogo. Depois do ocorrido, ele falou para o James Hunt: ‘ – O que me fez viver foi o ódio que eu senti. Você foi um grande estímulo, eu sentia raiva, porque você estava ganhando os meus pontos’. Nesta época, devido o acidente, o Nick Lauda não estava correndo. Eles viraram grandes amigos e eu o admirei. A competição é importante. As visões que uma outra pessoa têm são um estímulo, elas reforçam nosso posicionamento ou nos modificam”.

[Niki Lauda foi uma piloto austríaco. Em sua carreira, teve dois grandes adversários:  o piloto britânico James Hunt, campeão mundial em 1976, e o brasileiro Emerson Fittipaldi, bicampeão mundial em 1972 e 1974. Lauda sofreu um terrível acidente em 1976 e depois voltou a correr. O filme sobre a vida do piloto, o qual Fernanda Feitosa se refere, é Rush, dirigido por Ron Roward.]

Impostos e obras de arte

“O Brasil tem uma carga tributária muito alta para importação de obra de arte. Se você está no exterior e se depara com uma obra da Maria Martins, você paga 40% de imposto. Você é brasileiro e  comprou uma obra brasileira. Isto é uma situação anacrônica que, no mundo desenvolvido, o qual eu quero fazer parte, este imposto é zero. Ou, ele varia de zero até, no máximo, 7%. Com 40%, a gente está fora. Não só fora desta prática nos países desenvolvidos, como também a gente impede a concorrência do Brasil nesta disputa das 180 feiras de arte no mundo”.

“As isenções são dadas pelo governo mediante solicitação e atendimento de qualificações. A isenção do ICMS foi dada à SP-ARTE, porque nós solicitamos e atendemos os critérios da Secretaria da Fazenda. Isto também aconteceu com a ArtRio”.

Planos futuros

“É verdade que a gente está preparando uma feira de design. É design de mobiliário e iluminação”.


Matéria originalmente publicada no site O Beijo.


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