Em uma rua arborizada e calma do setor Marista – bairro nobre de Goiânia (GO) – seu João Garrote da Silva vive com a esposa e o filho. Em um cômodo escondido, porém amplo, o procurador aposentado da União construiu seu paraíso particular: uma oficina onde inventa objetos variados.
Com auxílio de parafusos, furadeiras e tornos mecânicos, soluciona problemas cotidianos. Incomodado com a agressividade dos aparelhos de barbear tradicionais, criou uma gilete diferente. Entre o cabo e a lâmina, instalou uma esfera de alumínio que permite a rotação em 360 graus. A flexibilidade do movimento permite que o objeto se adeque às diferentes angulações do rosto e não cause lesões na pele.
Para ajudar os cozinheiros de plantão, ele também inventou uma panela para produção de doces. No centro do utensílio, há um dispositivo, movido por um motor elétrico, que mistura os ingredientes e não os deixa grudar no fundo do tacho. Com menor contato com o caldeirão borbulhante, o risco de queimaduras diminui. “Eu tenho esta patente há muitos anos, mas já caiu em domínio público. Agora, a panela está sendo vendida por todo lado. Tem até no site do Mercado Livre”, orgulha-se.
O gosto pela invenção acompanha seu Garrote desde a infância. Quando criança, ele driblou a situação econômica humilde de sua família construindo brinquedos. Com natureza abundante a seu dispor, fabricava carrinhos, carrocinhas, rodas de água e monjolinhos. Aos 78 anos, ele não pensa em parar. Ao todo, acumula 35 patentes registradas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), órgão do governo responsável pelo catálogo de invenções.
Apesar da disposição em observar o mundo e criar soluções, ele não possui horário fixo na oficina. Com a sabedoria que só a idade traz, trata com leveza o mundo das invenções. Revela também que ocasionalmente ministra aulas em faculdades. “Vez em quando, eles me buscam aqui em casa e eu vou lá ensinar como se inventa e patenteia”, revela.
Ao falar de sua mais nova invenção, pede segredo. O registro do produto no INPI deve ser liberado em 2020 e por um ano e meio a pela deve ser mantida em sigilo. Diante da insistência, cede e adianta que se trata de uma inovação relacionada a um fruto típico do Cerrado. Não se aguenta e solta: “Você come pequi, não come? Minha invenção vai te ajudar a comer pequi sem sujar a mão”

