Com a calma característica dos mineiros, seus conterrâneos, Sara Não Tem Nome abre as portas de seu ateliê na Red Bull Station. Até maio, a artista fica imersa na residência, promovida pela instituição cultural.
A parede com referências para produção do trabalho – um disco com canções autorais – é, aos poucos, ocupada. Ao lado do postal com a reprodução do Sermão de Santo Antônio aos Peixes, figuram referências mais mundanas – letras de música, pinturas e registros de instalações.
“Eu não tenho muitas barreiras, coloco tudo aqui, desde música gospel até foto de lugar que vende hambúrguer”, revela.
A liberdade em misturar informações de mundos distintos, às vezes, diametralmente opostos, é uma característica de sua produção. Outro aspecto recorrente é a espontâneidade. Suas obras podem surgir, ao acaso, em um passeio com amigos. “Se você parar para pensar, o artista está sempre atento, ele nunca desliga”, afirma.
Em entrevista ao site O Beijo, a jovem artista, agora, representada em São Paulo pela Galeria Emma Thomas, falou sobre os primeiros contatos com o cinema experimental, a aversão à elitização do mundo da arte e os próximos planos para 2015. Veja a seguir trechos do bate-papo com Sara Não Tem Nome.
SITE O BEIJO – Sara, como você se interessou por cinema e artes visuais?
Sara Não Tem Nome – Quando eu estava no ensino fundamental, tive um professor que era cineasta. Ele passava vários filmes para gente. Obras que apresentavam outros panoramas do cinema. Isto foi importante, porque, naquela época, eu só tinha acesso ao cinema de shopping e nem sabia deste outro universo.
Mais tarde, comecei a fotografar. Usava o celular, era uma coisa low-fi mesmo. Depois, me inscrevi em um curso de audiovisual e vídeo em Contagem (MG); e comecei a produzir vídeos. Quando me formei no ensino médio, não tive dúvida, já entrei direto para Escola de Belas Artes.
SITE O BEIJO – Quando decidiu que deixaria seu sobrenome para trás?
SNTN– Isto aconteceu na faculdade. Quando entrei na Escola de Belas Artes, era bem nova, então, tinha uma visão um pouco romântica. Achava que artistas eram pessoas mais sensíveis. Pessoas mais legais para se conviver. Gente que pensava formas de melhorar o mundo. Não que os trabalhos tivessem que propor melhoras, mas, no geral, imaginava que tivessem um pensamento um pouco à frente.
Achei também que eu não ia encontrar pessoas preconceituosas, mas, depois, vi que não era bem assim. Muita gente, mesmo tendo estudando em escolas ótimas, ainda tinha preconceitos. Comecei a me questionar e vi que não sentia pertencente àquele mundo. O Sara Não Tem Nome vem disso. Eu queria que meu trabalho fosse forte, independentemente do meu sobrenome.

‘Eu nasci em um bairro que se chama Eldorado, ele fica em Contagem, Minas Gerais. A gente brincava muito com o nome e a lenda que o envolve, porque achávamos lá o inferno. Era um lugar muito poluído, não tinha nada, era cinza. O “Helldourado” surge disso. É uma série de imagens e textos relevantes de lá.”
Matéria originalmente publicada no site O Beijo.


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