Entre os bairros da Vila Madalena e da Pompéia, a labiríntica Vila Anglo está. No quarteirão delimitado pelas ruas paralelas Bica de Pedra e Mundo Novo, abriga o Condomínio Cultural. O espaço colaborativo de criação e experimentação artística, nesta semana, é o nosso personagem da séria Gente da Arte.
Visitar o Condô, como os mais íntimos o chamam, é uma experiência de difícil descrição. O terreno amplo, mais de 970 m², provoca, ao mesmo tempo, encantamento e assombro. O pé direito alto e o grande número de cômodos desorientam. É tanto espaço que os carros empilhados em ruas parecem uma realidade distante.
As pessoas que o ocupam, cerca de 70 condôminos, designação dada aos colaboradores fixos, e 150 parceiros, reestabelecem o laço com o real. As vozes vindas de todos lados mostram que ali tem gente. Dramaturgos, atores, produtores, bailarinos e fotógrafos em processo de criação que querem, a partir da experiência, criar um caminho, na produção cultural e na vida, mais afetivo e menos mercadológico.

A história do Condô tem início em 2010 quando o ex-empresário do ramo da sonorização Kako Guirado comprou o casarão na Vila Anglo. A ideia inicial era que sua empresa coexistisse com o espaço cultural. A movimentação artística engoliu o empreendimento e as atividades ocuparam todo espaço.
A produtora cultural Géssica Arjona estava neste momento inicial e foi uma das primeiras condôminas. “A gente ficou um ano pensando em como iria se configurar juridicamente. Depois de decidir pela associação, começamos a colocar a mão na massa. Demolimos uma parte do prédio, consertamos o telhado e começamos a chamar pessoas. Não tinha muito segredo, a gente falava: ‘Arruma uma sala e começa a trabalhar’”, conta.
De lá para cá, muita coisa mudou. O vai e vem de colaboradores transforma, a cada ano, as regras de convivência e de contribuição financeira. O que se mantém é a disposição de experimentar o processo colaborativo, como pontua uma das condôminas, a marionetista Juliana Notari: “A gente busca pessoas que tenham interesse no convívio e nas novas formas de gestão cultural e sustentabilidade”.

Em 2016, o espaço cultural segue com seu ritmo costumeiro, mas tem importantes desafios a enfrentar. Um deles é uma dívida de IPTU, referente aos dois primeiros anos de funcionamento. Orçada em R$ 71.340,00 mil, seu pagamento mensal, cerca de R$ 2 mil compromete a ampliação das atividades realizadas.
Para tentar resolver o problema, uma vaquinha on-line foi lançada em 2015. Ao contribuir, parceiros e simpatizantes do projeto recebem recompensas como almoços, jantares e convites exclusivos para festas no Condomínio. O prazo para doações segue aberto até 29 de fevereiro de 2016.
A semana de atividades, realizada de 4 a 6 de dezembro, também busca sensibilizar a comunidade para questão. Com exposições, apresentações de teatro, projeto de gastronomia vegetariana, revelam, à quem conhece ou não os condôminos, o que é produzido no casarão, povoado de trabalho e afeto. A entrada é gratuita.
Publicado originalmente no site O Beijo.


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