O artista Victor de La Rocque encara a câmera. Em seu colo, está a avó, a paraense Maria Dora de La Rocque, de 83 anos, diagnosticada com Alzheimer há três anos. Os dois estão nus. O corpo rijo do artista constrasta com a pele frágil da matriarca e explicita o quão delicado é o tratamento da doença que causa deterioração de funções cerebrais.
O autorretrato de Victor com a avó, produzido em 2014, era para ser um trabalho de arte, onde gratidão e desabafo se mesclam, porém se transformou no pivô de uma briga familiar, levada posteriormente à Justiça. Um dos tios do artista, Rubens Guilherme de La Rocque, acionou o Ministério Público por achar que a nudez no registro é ofensiva.
O artista se defende. “As pessoas falam tanto da nudez e a última coisa que vejo é isso. Para mim, tem mais a ver com o amor e o desnudamento que a doença promove no paciente e em quem o cerca. O Alzheimer é difícil. Minha avó era ativa e agora depende de ajuda para comer, para se vestir”.

Nesta batalha judicial, Victor tem o apoio do avô, o aposentado Rubens Branco Bevilácqua, de 85 anos, marido e responsável legal de Maria Dora. Foi ele quem autorizou e auxiliou o neto no registro. “Depois que fiz a direção de arte do trabalho, foi ele quem apertou o botão da câmera”, conta.
Rubens Branco confirma a versão do artista. “Aceitei que ele fizesse o autorretrato, porque era uma forma de chamar atenção para a doença. A nudez surgiu para dar mais força e não tem a menor conotação de erotismo. O trabalho foi mal interpretado”.
Na última segunda-feira (19/10), ocorreu a primeira audiência do processo. O avô de Victor depôs. Fora dos tribunais, também se pronunciou. Fez com o neto um autorretrato semelhante ao que motivou o conflito. Com o semblante sereno, nu, aparece carregado pelo artista.
A reportagem do site O Beijo ligou para o tio de Victor, Rubens Guilherme de La Rocque, mas o celular estava desligado.

Publicada originalmente em http://www.obeijo.com.br, no dia 20 outubro 2015.


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