“A obra de arte quer fazer parte da vida”, diz Jochen Volz / Site O Beijo

Você fala Iorran, com erre rasgado, mas escreve Jochen. O sobrenome é Volz. Jochen Volz é o curador da próxima Bienal de Artes de São Paulo, a 32ª edição da mostra, a ser realizada em 2016. O alemão com tom solícito e firme é o último personagem da série Gente da Arte em 2015.

Sem pompa ou burocracia, recebeu a equipe O Beijo no pavilhão Ciccilio Matarazzo, no Parque Ibirapuera. O prédio projetado por Oscar Niemeyer é a casa da Bienal desde 1957, ano em que foi inaugurado. Jochen anda por ele com desenvoltura. Sobe e desce rampas sem perder o fôlego ou reclamar.

O calor incomoda, mas não é para menos. O termômetro marca 30º. Ao entrar na sala em que a entrevista vai acontecer, a primeira coisa que faz é ligar o ar-condicionado. Mira o aparelho de forma brincalhona e se senta. Na conversa, fala da Bienal, da revisão da narrativa eurocêntrica e da distração do público em uma exposição.

Como não poderia deixar de ser, volta ao tempo e rememora a experiência no Instituto Cultural Inhotim. Ele esteve na instituição mineira de 2004 a 2012, em diferentes cargos: curador, diretor geral e diretor artístico. De lá, traz lições caras, como “a confiança no público e na obra de arte”.

A entrevista é iniciada pelo tema da Bienal: “Incerteza Viva”. Jochen o destrincha para falar como chegaram à escolha. Há muito tempo ele pesquisa o assunto. Trazê-lo para mostra aponta uma nova via de interpretação que foge da associação usual com medo e crise.

“A incerteza é um sentimento que surge frente à tomada de decisão e nos permite entender a preciosidade do momento em que vivemos”.

 

O alargamento dos significados do vocábulo coincide com a busca de novas cosmologias (formas de ver o mundo), na qual a Bienal estará imersa. Quando perguntado sobre a necessidade da revisão do saber eurocêntrico, o curador é categórico: “Todos nós aprendemos uma narrativa que não se sustenta mais. Ela não é abrangente, temos mais conhecimento e contradições do que ela suporta”.

A nova forma de conceber a produção artística e a produção de conhecimento levou a exposição a se estender ao jardim e ao fuzuê de jovens e adolescentes do Ibirapuera. “É um desafio. Se queremos pensar outras formas de permitir a coexistência e a contradição, o jardim é um lugar que permite isso, mais até do que a cidade”.

A experiência de Jochen com público que não é habitué de galerias ocorreu, de forma mais intensa no Instituto Inhotim. Com crianças e adolescentes da região, ele aprendeu que era possível confiar na curiosidade de quem contempla, independentemente da formação acadêmica.

“Nós optamos por um caminho cuidadoso, quase passivo para ajudar alguém a encontrar a obra. Nunca se falou: ‘Você tem que entender isso e isso para apreciar”. Deixávamos eles à vontade e observávamos. Da experiência, desdobravam-se ações. Foi uma perspectiva muito importante, Inhotim trouxe essa confiança no público e na obra de arte”, conta.

“Inhotim é um projeto grande sim, mas articula arte e meio ambiente, não tem nada a ver com a Disney”

Quando perguntado sobre o apelido irônico da instituição, ventilado a boca miúda, “Disneylândia da Artes”, ele não se esquiva e responde: “Isso não me incomoda mais, porque conheço o papel educativo e de formação profissional do projeto na região”.

Além da confiança no público e do traquejo em lidar com críticas, Jochen parece trazer de Minas a tranquilidade em lidar com os diversos modos de ser ver um trabalho artístico.

“A obra de arte quer fazer parte da vida. Muitos artistas buscam esta aproximação e se realmente a querem, (as diferentes formas de ver uma obra) tem que ser permitidas. Tudo bem você ser distraído, se uma obra te toca, você vai largar seu telefone e vai começar a assistir, ouvir, tocar ou cheirar”, finaliza.

Publicado originalmente no site O Beijo.


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