Quase 100% / Revista Quiprocó

Albert é alto, dono de um corpo esbelto. Fala baixo e movimenta-se com sutileza e discrição. Seus traços são delicados. O nariz fino e os olhos expressivos parecem equilibrar-se no rosto triangular. Sem maquiagem, dificilmente seria abordado e questionado sobre sua outra persona, a comunicativa Dindry Buck.

Ele reconhece o papel da personagem em sua vida e mantém com ela uma relação de complementariedade. “O Albert é uma pessoa um tanto quanto tímida, mas com a ajuda da Dindry, conseguiu se soltar, se tornar um pouco mais expansivo”. Na sala de sua casa, de calças compridas, camiseta e boné, ele fala da vida e da profissão. Está sentado ao lado de sua mãe, Dona Conceição, uma senhorinha mineira de oitenta e três anos, que o observa encantada.

A mãe de Albert, Dona Conceição. Créditos:: Marcela Alvarenga

Albert nasceu em Belo Horizonte, viveu a infância e adolescência no município de São Francisco (MG). A cidade, às margens do Velho Chico, é definida por dona Conceição como “uma cidade simples, de poucos habitantes, que agora parece estar melhorando”. Na década de 90, mudou-se para São Paulo. Seu sonho era ser um grande ator. Em 1997, interpretou seu primeiro papel feminino na peça Fulaninha e Dona Coisa, de Noemi Marinho. A personagem o deixou inquieto. Tempos depois, teria o primeiro contato com o mundo LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. Dindry Buck começava a nascer.

Diante das dificuldades da carreira artística, Albert mudou de rumo temporariamente e graduou-se em Publicidade e Propaganda, na Universidade São Judas Tadeu. “Infelizmente, eu vi que era um tanto complicado me estabelecer como ator. Para conseguir, você tem que ter um padrinho influente para te abrir as portas”, desabafa. Depois de formado, ficou desempregado e viu surgir a oportunidade de se montar. O acaso tornaria aquela sua profissão.

Albert no processo de maquiagem: quase Dindry. Créditos:: Marcela Alvarenga

Apesar das lantejoulas e das belas perucas, ser drag não é fácil. Normalmente, a carreira se inicia em concursos de beleza, como o Miss Gay. O começo, segundo Albert, é de muito gasto e pouco retorno. Antigamente, também existiam poucos cursos de maquiagem e figurino, o que dificultava a profissionalização. O domínio do processo de construção da personagem é tão importante quanto a apresentação no palco.

Uma saída financeira para as drags é a atuação em festas e boates. Nestas, as profissionais fazem performances e trabalham como hostess, recebendo os frequentadores. Dindry, por exemplo, trabalhou na lendária Freedom, uma das primeiras boates gays de São Paulo a promover matinês.

A aceitação familiar foi fundamental para sua carreira. “Minha mãe nunca me questionou, nunca precisei dizer que era gay. O mesmo aconteceu quando disse: ‘Mamãe, eu vou ser drag’. Ela me perguntou o que eu precisava, me deu dinheiro para comprar a primeira peruca, bancou a maquiagem. Com tudo que viveu, o importante para ela é ser feliz”.

Um detalhe do vestuário de Dindry. Créditos:: Marcela Alvarenga

“O único homem da minha vida”

Dona Conceição é uma página à parte na história de Albert. No final da década de 1960, ela ficou grávida do padre da cidade. A gestação era uma afronta compatível a sua independência. Ela tinha residência própria e emprego – por muitos anos, foi professora do ensino médio e fundamental. A cidade toda soube da história. O avô de Albert nunca repreendeu a filha. O rechaço veio de fora. Dona Conceição sabia do burburinho, mas se impunha. Até hoje é assim. Em tom firme, diz que não gosta de fofoca e que cada um deve cuidar da sua vida.

O tão polêmico pároco era alemão. Chegou ao Brasil sem saber falar uma palavra em português. Encantou e foi encantado. Dona Conceição prefere não revelar o nome dele, mas entre um causo e outro, deixa escapar que era um homem bonito e muito educado. Quando questionada se o caso foi uma paixão, ela abre um sorriso discreto, expressão máxima de sua mineirice, e diz que sim, “muito, foi o único homem da minha vida”.

Albert e sua mãe: cumplicidade exposta no retrato da infância. Créditos:: Marcela Alvarenga

Albert lembra-se pouco do pai. Lembra que ele era grande, sentia-se pequeno na imensidão de suas mãos. A convivência foi interrompida aos cinco anos de idade, quando o pároco faleceu em um acidente de carro, na estrada entre as cidades mineiras de Januária e Montalvânia. Ele foi ao velório com a mãe. A história seria enterrada ali.

Dona Conceição e o filho tornaram-se cúmplices. Hoje, eles dividem uma casa em Itaquera. Depois que ela se aposentou, ele assumiu as tarefas de casa. Lava, cozinha e, quando necessário, costura. Ela mede elogios, quando perguntam sobre Albert, solta um suspirinho e diz: “Ele é o meu tudo, meu companheiro, meu marido, meu amigo”.

Jô Soares e Audrey Hepburn

Albert viu sua personagem deslanchar quando foi destaque na revista da Folha de São Paulo. Depois, participou do reality show Tá na Mão, exibido pela TV Bandeirantes. O ápice veio com a participação de Dindry no programa de Jô Soares. Ela e Sissi Girl, amiga de longa data e sócia em uma empresa de eventos, foram entrevistadas pelo apresentador, que a elogiou: “Você parece a Audrey Hepburn”.

Atualmente, Albert e Dindry deixaram a noite. Dedicam-se a realizar performances em eventos sociais (aniversários, casamentos), culturais (festivais e exposições) e corporativos (congressos e feiras). Em outubro de 2014, venceram o receio e participaram do Rodeio de Jaguariúna (SP), um dos mais famosos do país.

Outro detalhe de Dindry. Créditos:: Marcela Alvarenga

Em feiras e festivais, ministram palestras sobre educação sexual. No Largo do Arouche, integram o Esquadrão das Drags , junto com mais três amigas – Sissi Girl, Send Buck e Nyna Ca$h. O grupo alerta adolescentes sobre os riscos de relações sem proteção e o uso abusivo de álcool.

Diante de tantos projetos e feitos, Albert não nega: “É uma realização. Eu consegui alcançar meu objetivo, sou ator interpretando a Dindry. Também consigo sobreviver do meu trabalho. Consegui estar em lugares que nunca imaginei. Sou uma pessoa 70% realizada. Não digo 100%, porque sempre há algo a conquistar”.

No quintal de casa, Dindry posa para Marcela. Créditos:: Marcela Alvarenga

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