Guia pra Quarentena criativa

Museus que você pode conhecer sem sair de casa

Com a suspensão de atividades em instituições culturais na cidade, uma boa opção para quem é apaixonado por artes visuais é visitar o acervo de museus pela inter- net. sem limites geográficos, dá para conhecer mais de 1 600 obras do Masp e, na sequência, explorar as produções de 625 artistas presentes na coleção do Guggenheim Museum americano. Ainda nos Estados Unidos, que tal dar uma passada no Museu de Arte Moderna de Nova York e se deslumbrar com pinturas de Van Gogh? Na Europa, um pulinho no British Museum, na Inglaterra, ou no Reina Sofía, na Espanha, é mais do que bem- vindo. Agora que você tem uma sugestão de roteiro, que tal começar o passeio? Bons cliques.

> Guggenheim Museum

Conhecer 625 artistas, esse é o delicioso desafio do acervo do Guggenheim Museum, que tem mais de 1700 obras. sente-se perdido ao fazer a busca? Há a possibilidade de passear pelas redes sociais do museu, que também são abastecidas com trabalhos como os do site specific Aten Reign (à esq.; 2013), de James Turrell, que transformou, por meio de luzes de diversas cores, a cúpula do prédio, projetado pelo americano Frank Lloyd Wright (1867-1959).

> Museu de Arte Moderna de Nova York

A instituição americana tem em seu acervo físico mais de 200 000 obras. Quase metade delas, 84 000, pode ser vista no site do museu. Está lá A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh (à esq.; 1853-1890). A busca é fácil de usar e contempla nomes de artistas e de trabalhos. Uma boa é também se aventurar e encontrar nomes não tão conhecidos por aqui, como o japonês Naotaka Hiro.

> Masp

Um dos cartões-postais de São Paulo, tem um acervo on-line com 1 634 obras. Nesse conjunto, há clássicos como Retrato do Conde-Duque de Olivares (à esq.; 1624), de Diego Velázquez (1599-1660), e Quatro Bailarinas em Cena (1890), de Edgar Degas (1834-1917). Para quem curte uma nostalgia, vale olhar as exposições realizadas por ali desde 2006. Só assim para minimizar um pouquinho da saudade de Tunga (1952-2016) e Guerrilla Girls.

> British Museum

Artificial Rock No 82 (à dir.; 2005) é uma peça de aço inoxidável, feita pelo escultor chinês Zhan Wang, inspirada em uma pedra do lago Tai, o terceiro maior de água doce da China. Se você não conhece nem o artista nem o lugar, tudo bem. Que tal buscar relações? Navegando pela web, dá para enxergar um diálogo entre essa obra e as de Yutaka Toyota, que mora no Brasil e pensa em efeitos ópticos nas peças.

> Reina Sofía

O museu espanhol tem a impactante Guernica (1937), tela de Pablo Picasso (1881- 1973), com mais de 7 metros de largura e 3 metros de altura. Para melhorar a compreensão do conjunto, é possível ver a coleção dividida em três grupos: A Ruptura do Século XX: Utopias e Conflitos (1900-1945), A Guerra Acabou? Arte em um Mundo Dividido (1945-1968) e Da Revolta à Pós-Modernidade (1962-1982).

Por dentro da obra

> Realismo Fantástico(2018), de Marcia de Moraes

Créditos: Felipe Berndt

Estímulos literários: Jorge Luis Borges (1889-1986) e Julio Cortázar (1914-1984) são dois dos autores que inspiraram Marcia de Moraes na criação do título desta obra. “passei uma temporada em 2013 na Argentina e li muitos contos do realismo fantástico, que é um movimento literário”, detalha a artista, que frequentava o mesmo bar a que Borges ia, no bairro de palermo, em Buenos Aires.

Cria e recorta: Quando começou a criar colagens, a artista paulistana utilizava excertos de desenhos que não tinham dado certo. Depois, optou por criar composições especialmente para ser desmontadas. “É um exercício de rearranjo”, afirma. Nesse processo, os elementos partem de formas figurativas. Você consegue reconhecer aí folhas, caules e pedaços de frutas?

“Não esqueça que eu venho dos trópicos”: A profusão de cores, vindas de lápis importados, é parte importante do trabalho de Marcia. “Quando eu morava na França, as pessoas ficavam incomodadas com a quantidade de tons vibrantes. Nessa hora, eu sempre dizia: ‘Não esqueçam que eu vim dos trópicos’, que é uma frase da escultora e desenhista Maria Martins (1894-1973)”, diverte-se a artista.

Transformação de peito aberto: As formas circulares à esquerda nasceram do desenho de seios que a paulistana começou a fazer. “Eu estava amamentando”, conta. Com o processo de repetição e rearranjo da forma, feito em seu ateliê na Vila Mariana, nasceram argolas. “Elas são peitos esvaziados”, adiciona Marcia, que leva dez dias para fazer uma colagem.

Panos vibrantes

Na série Semaninha, a artista goiana Débora Taiane Oliveira Alves, de 24 anos, faz uma discussão sobre sexualidade em um suporte pouco usual: os corriqueiros panos de prato

Créditos: Paulo Rezende

Quando você começou a produção dessa série? Pintei toda a série em janeiro de 2020, no ateliê do Dalton de Paula, artista do qual sou assistente. A gestação do trabalho, entretanto, vem de antes. Durante meu trabalho de conclusão de curso, comecei a pensar sobre o espaço público e o espaço privado por uma perspectiva de gênero. Li naquela época Simone de Beauvoir (1908-1986). No fim, para a faculdade, entreguei algo mais ligado ao espaço público. Contudo, devido ao estímulo dado pela minha orientadora, a professora Manoela dos Anjos Afonso Rodrigues, da Faculdade de Artes Visuais de Goiás (FAV- UFG), esse recorte intimista ficou latente em mim.

O que aconteceu quando você olhou para esse lado mais intimista? Surgiram questões da infância na minha cidade natal, Bom Jardim de Goiás, que fica no interior. Lá, são bem retrógrados os papéis relacionados às mulheres. O espaço da cozinha é muito mar- cante nessa discussão, o casamento também. Lembrei da casa da minha mãe, dos panos de prato especiais, que não deveriam ser usados no cotidiano, mas sim como enfeites. Daí decidi subverter esse elemento.

De onde vieram esses panos de prato que você utilizou? Pedi que minha mãe comprasse, minha tia costurou as barras quadriculadas. Nesse processo, descobri que o conjunto com sete se chamava semaninha, que é o nome da série.

E que conexões você tenta fazer por meio deles? A mulher tenta buscar seus direitos, mas eles são negados. A cozinha é um lugar que parece natural a ela, enquanto a busca pelo prazer não. A masturbação masculina é tida como algo comum, que é muitas vezes comentado. A feminina não, é vista muitas vezes como algo sujo, que não deve sequer ser mencionado. Os vibradores que eu retrato, de alguma forma, quebram esse tabu.

E as frutas? Elas fazem menção ao órgão sexual feminino e ao erotismo, como a maçã, a laranja e a romã.

Sua família gostou dos panos de prato? Eles não viram, minha mãe não tem muito interesse na minha carreira artística. Fiz uma troca com ela e minha tia. Elas me ajudaram a encontrar e costurar os panos de prato, e eu pintei alguns


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