A morte e as mil vidas do centro

Pedro Carvalho e Tatiane de Assis

A Rua Dom José de Barros, um dos antigos calçadões do chamado “Centro Novo”, entre a Praça da República e o Teatro Municipal, mais parece um filme pós-apocalíptico em plena luz do dia. Lojas fechadas, muros pichados, traficantes nas esquinas e uma avassaladora quantidade de lixo nas calçadas fazem soar o alerta: os problemas do Centro pioraram na pandemia. A 600 metros dali, porém, nos arredores do Edifício Copan, um otimista chamaria de “europeu” o clima nos bares e restaurantes descolados do pedaço. Quase um ano após a chegada da Covid-19, contrastes assim se repetem por toda a região central. No cesto dos lugares em crise, inclui-se a bancarrota comercial do Vale do Anhangabaú, a decadência da Praça Dom José Gaspar, a disparada nas queixas sobre furtos e outras agruras. Na balança oposta, estão multinacionais que decidem apostar nos bairros históricos, novos moradores que mudam a cara de prédios tradicionais e comércios icônicos que mostram sua força em meio à turbulência. A mudança mais visível (e comentada) do Centro, nos últimos meses, é o aumento no número de moradores de rua — sobre o qual a prefeitura não tem dados exatos. A crise sanitária teve consequências na segurança da região. No Largo do Paissandu, a instalação de banheiros pela prefeitura atraiu também traficantes, prostitutas e trombadinhas que aproveitam os novos tapumes para trabalhar. Na Praça Dom José Gaspar, as barracas que se instalaram nos gramados viraram pontos de venda de drogas. Ao mesmo tempo, o Centro deixou de contar com os olhos vigilantes de funcionários públicos que tiveram de trabalhar em casa.


Promessas sem data na praça da B3 – A requalificação urbana do eixo formado pela rua João Brícola e a Praça Antônio Prado, conhecida também como Praça dos Engraxates, foi aprovada pelo Conpresp em 7 de dezembro de 2020. O projeto, encampado pelo banco Santander em parceria com a Bolsa de Valores (ou B3), inclui a instalação de floreiras e bancos ao longo do espaço. Segundo a B3, porém, não há data para o início das obras. A Bolsa tem um braço de investimento na região central. A empresa adquiriu um terceiro prédio no Centro, agora na João Brícola. O objetivo é levar para o local, até 2023, as equipes de funcionários que estão em Alphaville, centralizando as operações no coração da cidade.


“Aos poucos, uma série de ruas passou a dar aquela sensação de ‘terra de ninguém’”, diz Ma- rina Barbosa, presidente do Conseg (conselho comunitário de segurança), que cuida do trecho entre o Viaduto do Chá e a Praça da República. Ainda que os dados da Secretaria de Segurança Pública mostrem uma estabilidade nos delitos entre 2019 e 2020, a piora é consenso entre comerciantes e moradores. “Nos últimos três anos, fui assaltado várias vezes na frente do Copan. Saí de lá, não aguentava mais”, diz Alfredo Nora, 44, que hoje aluga sua unidade no prédio. “Sempre teve roubo de celulares no Centro, mas antes eram meia dúzia, agora são dezenas. Quem sacar o celular nas avenidas Ipiranga, São Luís ou Consolação entre as 18 e as 20 horas provavelmente será assaltado”, diz Marcone Moraes, administrador da Galeria do Rock. “Vejo roubos todos os dias embaixo da minha jane- la”, completa Bruno Bocchese, dono de bares e morador da Praça da República. “Fechamos às 18 horas porque os clientes não vêm mais para o Centro à noite”, acrescenta Rodrigo Alves, dono do Ponto Chic — que no sábado (30) desobedeceu a ordem de fechamento da prefeitura, indignado com a ida de Bruno Covas ao Maracanã.


As várias faces do Copan – Em Barcelona, quadras no interior de blocos de prédios servem de pontos de encontro. Em São Paulo, mais especificamente no Copan, quem faz esse papel é a via interna que liga o prédio, projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012), aos edifícios Vila Nor- manda e Bradesco Nova Central. Antes da pandemia, circulavam no pedaço os frequentadores do restaurante Orfeu, da lancho- nete Copanzinho e da associação cultural Pivô. Em 23 de novem- bro, no meio da crise sanitária, uma nova integrante se juntou ao grupo: a livraria Megafauna. Em espaço adjacente a ela, veio também o restaurante e café Cuia, da chef Bel Coelho. “Tem sido melhor do que a gente esperava. Temos ouvido dos clientes que é um alento na quarentena ir até a livraria”, diz a editora Fernan- da Diamant, uma das sócias. “Muita gente de outros bairros tem vindo comprar aqui. Mas o Centro, é preciso falar, tem uma po- pulação leitora muito grande.” Nem tudo no Copan, porém, é efervescência cultural. A reforma da fachada se arrasta desde 2011. No mais recente capítulo, o condomínio disse que apresen- taria ao Conpresp no primeiro semestre de 2020 um projeto exe- cutivo onde constaria o tipo de pastilha a ser utilizado no exte- rior do prédio, um dos motivos da celeuma, e o cronograma de obras. “Por causa da pandemia, atrasamos. Até mês que vem devemos entregar”, diz o síndico Affonso Celso Prazeres de Oli- veira, 80, à frente da gestão desde 1993. Oliveira é uma seção à parte nos conflitos. “Morar aqui é muito bom, seria melhor ainda se o síndico ouvisse as reivindicações dos moradores por um bi- cicletário e por medidas de segurança. Tem uma gangue da bici- cleta assaltando na região”, aponta Fábia Renata Souza de Olivei- ra, 44, que vive lá desde 2009. Menos afeito a ódios e paixões, o vizinho e curador Thyago Nogueira, 45, faz um resumo da ópera: “O prédio ganhou uma organização exemplar com o Affonso, mas é preciso repensar a gestão, que é baseada no poder cen- tralizador do síndico”, opina.


A lanchonete, pelo menos, segue aberta. “Muitos comércios e restaurantes do Vale do Anhangabaú fecharam com as obras e a pandemia”, lamenta Vavá do Bixiga, gerente do centenário Guanabara (leia mais na pág. 26). Se a falta de segurança e de zeladoria — materializada não só pela presença constante do lixo, mas também em pontos como o calçadão da Rua 7 de Abril, reformado em 2016 e já cheio de buracos e lixeiras que- bradas — freia a recuperação do Centro, outra campeã de queixas é a burocracia que envolve a recuperação de imóveis ociosos. Por ser uma região cheia de prédios antigos e tombados, a papelada necessária pode levar a labirintos regulatórios sem saída. “Só para trocar o letreiro da fachada, precisei de nove meses até conseguir as aprovações”, diz Alves, do Ponto Chic. “Para fazer um retrofit, você precisa da permissão de até sete órgãos públicos. Mas não se trata de um mesmo processo que tramita por todas essas esferas: em cada uma, é preciso iniciar um novo trâmite e mandar os mesmos documentos”, diz Fábio Redondo, dono de sete hotéis no Centro que passaram por reformas. “E, se você quiser pro- por uma mudança de uso, todos os processos recomeçam do zero”, completa. “As obrigações são imensas, o que leva ao paradoxo dos imóveis abandonados. É preciso reverter isso para as empresas voltarem à região”, completa Marcos Lisboa, diretor do Insper. A prefeitura afirma que lançou um projeto para a requalificação da 7 de Abril.


Reviravolta no Mirante – Desde 2018, o Mirante do Vale, prédio mais alto de São Paulo, com 170 metros, tem buscado se renovar. Naquele ano, o condomínio permitiu o acesso 24 horas de pessoas que exerciam ali funções ininterruptas e criou assim uma brecha para o uso residencial. O prédio, que estava com salas comer- ciais vazias, se encheu então de hós- pedes de aplicativos como o Airbnb. Vieram também os moradores. Um dos primeiros foi o paulistano Fernando Thadeu Fonseca dos Santos, 38, que vendeu um apartamento na Cohab de Carapicuíba para investir em uma quitinete de quase 40 metros quadrados, com uma minicozinha. “Fiz um binóculos para minha mãe enxergar melhor a vista do Vale do Anhangabaú quando vier me visitar”, conta ele. O vizinho francês Charly Andral, 34, adquiriu duas salas no 43o andar, agora transformadas em espaço cultural. Em cartaz está a instalação Três Paus Três Redes O Fogo, de Thiago Benucci (na foto acima, Ita- mara Alves, 24, namorada de Charly, experimenta a obra). “O senso comunitário das pessoas mais pobres é mais sofisticado do que o das de classe média e alta. Por isso, os estrangeiros, tão afeitos à ideia de comunidade, se sentem melhor no centro”, de- fende o fotógrafo Leonardo Finotti, que junto à esposa Michelle Jean De Castro tem no Mirante do Vale, desde 2013, a galeria de arte Lama.SP e um estúdio de fotografia. A reportagem procurou a prefeitura para saber sobre a regularidade do uso misto do Mirante, mas até o fechamento desta matéria não obteve retorno.


Sobre a zeladoria e limpeza, diz que investiu no monitoramento dos problemas, reformou 1 455 bueiros, instalou 307 pontos de iluminação e faz varrição nove vezes ao dia na região (uma caminhada ao redor da prefeitura revela que é muito pouco). Em 2020, um grupo de empresários formou uma associação chamada Pró-Centro para pressionar pelas mudanças. “Estamos criando uma frente de vereadores para transformar a região em uma zona de interesse especial”, diz Odivaldo Silva, um dos idealizadores. Mas a mais relevante iniciativa comunitária das últimas décadas, a Viva o Centro, crida em 1991, atualmente se encontra em uma espécie de hibernação. “Temos poucos funcioná- rios e menos engajamento dos moradores, que hoje tentam resolver suas queixas pelo site da prefeitura”, diz Anderson Rocha, coordena- dor de operações da associação.


A resistência dos comércios – Mesmo na crise, o Centro mantém uma incomparável capacidade de atrair clientes para os comércios. Um exemplo é a Galeria do Rock. “Não perdemos nenhum inquilino, tivemos apenas unidades que diminuíram de tamanho. A ocupação é de 87%”, diz o administrador Marcone Moraes. A ociosidade se concentra nos andares de cima, onde não são poucos os tapumes. Perto dali, o Ponto Chic (que completa 100 anos em 2022) também aproveita o movimento da região. “Quando reabrimos, em maio, a unidade do Centro foi a que se recuperou mais rápido (a rede tem lojas no Paraíso e nas Perdizes). No dia seguinte à liberação, vendemos 70% do patamar normal”, diz o sócio Rodrigo Alves. “A 25 de Março também está aquecida. Quem ficou desempregado vem comprar coisas aqui para revender”, diz Fabio Redondo, dono de sete hotéis no Centro que recebem essa clientela. “O Centro atrai as pessoas por ter co- mércios e gastronomia para todos”, completa Alessandro Reis, que abriu um coworking no Edifício Andraus às vésperas da chegada da Covid-19. “In- vesti 1 milhão de reais e ficamos quase parados em 2020. Agora já temos 30% de ocupação e, com aluguel baixo, somos lucrativos”, diz.


Tapumes, drogas e delinquência – Nos quarteirões entre o Vale do Anhangabaú e a Praça da República, são inúmeros os flagrantes de violência e falta de serviços públicos. A Rua Dom José de Barros, uma ligação entre o calçadão da Rua 7 de Abril e o Largo do Paissandu, é o ponto mais degradado do pedaço. Lixo nas calçadas, comércios falidos, muros pichados e pontos de tráfico formam a paisagem local. Na Praça da República, os assaltos se tornaram rotina. “Vejo diariamente pela janela os roubos de celular”, diz Bruno Bocchese, morador da praça. No Largo do Paissandu, a prefeitura ins- talou banheiros para atender à população de rua na pandemia. A estrutura obstruiu quase a metade da praça com tapumes. Hoje, além dos desabrigados, o largo se tornou refúgio para traficantes e ponto de prostituição. E, como os banheiros fecham à noite, a turma usa os gramados para fazer as necessidades. “Foram disponibilizados 151 079 banhos e 3 340 usos na lavanderia”, diz a prefeitura. De frente para o Paissandu, segue vazio o terreno onde desabou Edifício Wilton Paes de Almeida, em 2018 (em frente ao grafite, na foto acima). No início de 2020, Bruno Covas anunciou que faria moradias populares ali. “Projeto, orçamento e cronograma estão em andamento”, diz a administração.


A letargia na busca de soluções para o Centro se torna imperdoável em momentos como a crise atual. Mas a sensação de paralisia ainda permeia espaços nobres e abando- nados como o Cine Marrocos e o Art- Palácio. Ambos os cinemas seguem deteriorados, dez anos de- pois de desapropriados pela prefeitura, que afirma estudar soluções para os locais. A sina de reconstruir escombros não é nova no Centro, sempre o primeiro a sofrer nas crises econômicas. Ante aos problemas, ele costuma fazer valer a força das mais de 20 000 empresas e dos 356 000 em- pregos (ou 8% de todos da cidade) que existem apenas nos bairros da Sé e da República. Mesmo na pandemia, marcas importantes decidem apostar na região. É o caso da Allianz, que acaba de reformar um prédio para centenas de funcionários na rua Conselheiro Crispinia- no, ou do Santander, que revitalizou uma área próxima ao metrô São Bento (leia mais na pág. 28).


“É onde o Centro mais piorou”, diz o Conseg. A praça Dom José Gaspar, na República, ensaiou um renasci- mento nos últimos anos. Novos restaurantes e eventos atraíam um público descolado à região. Na pandemia, porém, o tráfico de drogas em barracas e as falhas na iluminação pública mudaram o cenário. “É onde a segurança mais piorou no Centro”, diz Marina Barbosa, presidente do Conseg (o conselho comunitário de segurança), daquele trecho do bairro. Na galeria Metrópole, anexa à praça, os corredores vivem abandonados (só 50% das lojas estão abertas) e goteiras viraram rotina. O bar Mandíbula, que ficava no 2o piso, fechou em 2020 com queixas sobre a zeladoria. “Os proprietários não têm interesse em reformar a galeria”, diz Bruno Bocchese, ex-sócio. Ricardo Gouveia, o síndico, diz que uma obra recente acabou com as goteiras. “Só ficaram as marcas no chão. O piso é dos anos 60, não é fácil trocar”, diz.


Novidades nas galerias vazias da São Luís – “Um deserto. A parte interna da galeria, com a pandemia, virou um deserto”, exclama João Zito Correa dos Santos, auxiliar de zelador do Conjunto Zarvos, que fica na esquina da Rua da Consolação com a Avenida São Luís. O prédio, de 1959, projetado pelo arquiteto e ex- di retor do Masp Júlio Neves, conta com duas torres. Há também uma galeria no térreo e no mezanino com 35 salas comerciais. Dentre os estabelecimentos que sobre- viveram à crise sanitária e econômica, estão escritórios de advocacia, a casa noturna Alberta #3, a loja colaborativa Endossa e os restaurantes Wanderlust e Ramona. Ficou na estra- da o Little Rock Coffee, de inter- net potente, convidativa para quem queria trabalhar com quitutes e sucos à mão. No balanço geral, apenas pouco mais de um terço das 35 lojas está ocupado. Mas o ano de 2020 trouxe um reforço à Zarvos em dezembro: o estúdio de design Paulo Alves, vindo da Vila Madalena. Em abril de 2021, outra boa nova vem do vizinho Louvre: a inauguração da Verve Galeria, antes no Jardim Paulistano. “É um salão de 110 metros quadrados, na altura da copa das árvores, com vista para a Biblioteca Mário de Andrade”, diz Ian Duarte Lucas, que tem o marido Allan Seabra como sócio.


“O comércio cotidiano sempre se- rá fundamental para oxigenar a cidade”, diz o professor de arquitetura Valter Luís Caldana, que vê saídas para a crise. “Fechar atividades é difícil, já que não temos um estado organizado. Mas as lojas podem usar a calçada para garantir atendimento sem aglomeração”, aponta. “A Prefeitura tem um plano de revitalização do Centro, por meio da ocupação dos espaços públicos e fomento da atividade econômica e turística. O projeto Triângulo SP prevê sessenta ações. Anunciado em 2019, ainda não começou. É provável que reformas, que poderiam ser feitas enquanto o Centro opera em ritmo reduzido, só começarão quando o comércio precisar recuperar o tempo perdido. Tapumes na hora errada.


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